Evento reuniu produtores rurais e especialistas para discutir clima, custos de produção, crédito, gestão e os impactos da geopolítica no agronegócio
O cenário econômico, as incertezas climáticas e as dificuldades de acesso ao crédito estão entre os principais desafios dos produtores rurais para a safra 2026/2027. Para discutir esses fatores e apresentar informações que contribuam para a tomada de decisões no campo, o Sistema Faeg/Senar/Ifag, o Sebrae e a Aprosoja-GO realizaram, na manhã desta segunda-feira (28), o Fórum Goiano Cenários do Agro, na sede do Sebrae, em Goiânia.
O encontro reuniu produtores rurais de diferentes regiões de Goiás e especialistas para debater os impactos da instabilidade geopolítica, as perspectivas climáticas, os custos de produção e a importância da gestão para a sustentabilidade financeira das propriedades.
O presidente em exercício da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Eduardo Veras, destacou a importância de oferecer informações qualificadas aos produtores diante das dificuldades acumuladas nos últimos anos e dos desafios para o novo ciclo agrícola.
“Com certeza, esse evento é justamente para trazer informações de qualidade ao produtor, para ele enfrentar essa safra, que tem os desafios atuais, mas também a soma dos desafios dos três anos anteriores, que trouxeram muitas dificuldades ao produtor, seja pela elevada taxa de juros, pelos preços e pela queda dos preços das commodities, que trouxeram uma baixa rentabilidade.”

Segundo Veras, o custo elevado dos insumos e as incertezas climáticas exigem planejamento e precisão nas decisões. Ele também chamou a atenção para os impactos dos conflitos internacionais sobre o fornecimento de combustíveis e fertilizantes.
“O crédito está muito caro e isso inviabiliza muito qualquer atividade agrícola, mas o produtor adquiriu, por exemplo, fertilizantes com um custo muito alto, então a rentabilidade está muito baixa. O que ele tem que fazer, ele sabe muito bem: fazer uma safra com muita técnica para ter uma produtividade satisfatória e tentar dar sustentabilidade financeira ao seu negócio.”
O presidente da Aprosoja-GO, Clodoaldo Calegari, destacou que o fórum foi organizado para ajudar os produtores a tomar decisões mais seguras.
“O objetivo deste debate foi consolidar informações técnicas, de estudiosos e especialistas, para que os participantes possam disseminá-las em suas regiões de origem, orientando o produtor sobre a melhor forma de conduzir a safra diante deste cenário desafiador. Nosso foco é a sustentabilidade e a sobrevivência do produtor, buscando estratégias para que ele atravesse este momento com o menor impacto possível.”
Calegari também destacou a importância da gestão dentro das propriedades rurais.
“A informação, quando circula de forma eficiente e atinge o maior número de produtores, torna-se uma ferramenta indispensável para otimizar a gestão ‘da porteira para dentro’ e garantir resultados mais eficazes e satisfatórios ao final da safra.”
Instabilidade internacional pede atenção do produtor
Os reflexos da geopolítica sobre o agronegócio brasileiro foram abordados pelo professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel. Ele explicou que a instabilidade internacional deve continuar afetando os custos dos insumos, os juros e o acesso aos mercados.
“A instabilidade geopolítica veio para ficar, não se trata de algo passageiro. São fatores estruturais, e isso tem impacto no custo dos insumos, dos juros, no acesso a outros mercados. O agro brasileiro precisa se preparar, monitorando o cenário global com frequência, pensando em determinados cenários e também, onde for possível, diversificar, porque ninguém mais deve depender apenas de um fornecedor ou de um mercado.”
Stuenkel ressaltou que a diversificação de fornecedores e mercados pode ajudar a reduzir os riscos diante de crises internacionais.
“Então é fundamental que o Brasil como um todo, mas sobretudo o agro, tenha alternativas, possa pensar em outros mercados para poder estar blindado da melhor forma possível quando surge uma crise geopolítica que tenha um grande impacto sobre o mercado.”
O professor também destacou que a preparação para cenários de crise é essencial para reduzir os impactos sobre os negócios.
“A pior crise é a crise para a qual a gente não se preparou, sobre a qual a gente nunca pensou.”

Clima exige planejamento e atenção à janela de plantio
As perspectivas climáticas para a safra foram apresentadas pelo professor de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Rafael Battisti. Ele alertou para a previsão de um El Niño de forte intensidade e explicou que o comportamento das chuvas pode variar entre as regiões do estado.
Conhecer o histórico climático da propriedade e planejar a época de semeadura são medidas importantes para reduzir os riscos. Battisti reforçou a importância desse planejamento.
“Então é extremamente importante o produtor conhecer o clima, olhar para um histórico de pelo menos 30 anos para entender como é o clima da região.”
Battisti explicou que, embora a previsão indique temperaturas mais elevadas, ainda há incertezas sobre o comportamento das chuvas ao longo da safra.
“Quando a gente olha para a previsão, olha para o passado, entende que, principalmente, haverá aumento de temperatura. Então, a gente pode esperar uma safra mais quente, mas, depois que a chuva começar, não observa uma tendência de ter veranicos ou de ter condições que possam limitar tanto o cultivo.”
O professor também alertou para a importância de aguardar condições adequadas de umidade do solo antes de iniciar o plantio.
“Então, a gente tem essa tendência de dispersão muito grande de chuva até esse estabelecimento mais firme da chuva. Um ponto importante é fazer o plantio nessas áreas. A gente precisa ter cobertura do solo, que vai ajudar a reduzir a temperatura do solo e da semente, vai auxiliar nessa parte de emergência de planta e observar principalmente a previsão de curto prazo.”
Gestão e controle de custos para proteger a rentabilidade
A gestão financeira e o planejamento foram os temas abordados pelo engenheiro agrônomo e consultor empresarial Marcelo Prado. Ele destacou que a atividade rural precisa ser conduzida com organização, controle financeiro e acompanhamento dos custos.
“O cenário é difícil, mas, ao mesmo tempo, existem grandes oportunidades, e um dos pontos principais é aumentar a eficiência em gestão, porque a agricultura é uma atividade empresarial e é necessário que se tenha planejamento, estratégia, uma boa gestão, controles financeiros, e essa área tem ficado esquecida dos empresários rurais.”
Prado também chamou a atenção para a importância de reconhecer falhas na administração e buscar melhorias para evitar problemas financeiros.
“O empresário rural precisa entender que ela é importantíssima para ele ter sucesso. Então, só dele falar: ‘Não, estou consciente disso’, 50% do problema está resolvido.”
Sobre a comercialização da produção, o consultor recomendou que os produtores evitem tentar acertar o momento exato de maior valorização dos produtos e adotem estratégias de venda escalonada.
“Então, se ninguém sabe, faça uma média boa. Hoje está no preço legal, venda 10% da sua produção, daqui a duas semanas está legal de novo, venda mais 20% e, no final, você faz uma média boa.”
Ele também reforçou a necessidade de acompanhar o mercado e controlar despesas para melhorar os resultados da atividade.
“Controle bem os custos, seja eficiente na administração das pessoas, das máquinas, saiba escolher bons momentos favoráveis para comprar os insumos, esteja preparado em termos de tudo o que acontece no mundo, porque tudo o que se passa hoje no planeta, de forma direta ou indireta, interfere no seu negócio. Então, o empresário rural precisa estar muito bem informado.”
Ao final, os participantes acompanharam um painel com orientações colaborativas dos especialistas sobre estratégias para aumentar a eficiência na condução da safra 2026/2027.
Comunicação Sistema Faeg/Senar
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