Com o avanço do greening em São Paulo e Minas Gerais, produtores encontram em Goiás condições para ampliar a citricultura, enquanto enfrentam desafios como preços, clima, sanidade e mão de obra. Leia mais conteúdos aprofundados em: https://sistemafaeg.com.br/acervo-digital/revista-campo
Impulsionado pelo avanço do greening (também conhecido como Huanglongbing - HLB) no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo Mineiro, Goiás tem se firmado como nova fronteira de produção de laranja, mexerica e limão, favorecido por condições de solo e clima propícias ao cultivo. Segundo o boletim Agro em Dados, da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), o Estado ocupa hoje o 8º lugar entre os maiores produtores de laranja do Brasil, com safra recorde estimada em 199,7 mil toneladas para 2026.

Enquanto grande parte da laranja produzida no Brasil segue o preço ditado pela indústria de suco, o citricultor Mario Antônio da Silva Junior aposta no merca- do local. Ele começou com 1.800 pés e hoje administra mais de 30 mil plantas de laranja e mexerica, com pomares 100% irrigados. Para atender o varejo de forma constante, Mario escalona a produção. "A nossa área é 100% irrigada, porém a gente faz alguns manejos diferentes para escalonar a produção, porque a gente atende o mercado local também. Temos a classificação das frutas, o maquinário e tal", explica.
O resultado é um pomar com diferentes estágios de desenvolvimento. "Eu tenho plantas florando, plantas que têm uma fase de fruta que a gente chamaria de um ping pong, frutas colhendo, frutas já uma bola de sinuca, que é uma colheita prevista para o final de ano", descreve. A variedade pera rio contribui para a estratégia. "A variedade pera rio permite mais de uma florada por ano. Vai depender do manejo que você faz. Às vezes a gente consegue até três floradas, dependendo. Faz uma irrigada, no final de ano vem uma e, às vezes, num veranico aí em janeiro, fevereiro, vem outra. Isso vai variar muito, mas é meio normal conseguir mais floradas, só que precisa da irrigação".
Na mexerica, o manejo varia de acordo com o pomar, inclusive em áreas de sequeiro. "Essas plantas que estamos colhendo de mexerica, que seria uma safra de sequeiro, a gente mantém a irrigação ativa até para a qualidade do fruto, para ele continuar crescendo, dar enchimento", detalha.
Manejo contra o clima
Com a expectativa de um fenômeno climático mais intenso neste ano, Mario ajusta o manejo para proteger a produção durante a floração. "A gente já começou o planejamento de irrigação em alguns setores, começamos a trabalhar com alguns produtos para ir mitigando os efeitos climáticos na planta. Estamos fazendo isso, independente de El Niño", conta.
Na mexerica, utiliza hormônios para retardar a floração. "Na mexerica a gente usa alguns artifícios hormonais para poder, na época que normalmente El Niño solta uma chuva muito esporádica, em setembro, bem isolada, que tende a trazer florada. Então a gente nessa época usa hormônio para manter a planta travada, para ela não soltar a fl oração. Ela vai soltar essa florada lá para novembro", explica.
Na laranja, a estratégia é segurar a floração até novembro, quando normalmente as chuvas já se estabilizaram. "Segurando essa floração para novembro, vocês já têm a condição de trabalhar com chuva normal, que vem geralmente para o final do ano, e aí a irrigação vem só com um apoio", diz. Mario também destaca a importância da nutrição e da sanidade. "Uma planta bem conduzida nutricionalmente falando e bem conduzida sanitariamente falando também tende a sofrer menos consequências da adversidade climática, apesar de sofrer também, mas um pouco menos."
Mercado e preço
O produtor enfrenta margens apertadas porque o valor da laranja é influenciado pelo mercado internacional de suco. "O preço que paga o produtor está muito baixo, de fato, porque o que determina o preço, por ser commodity, é o valor que está sendo exportado ao suco. Então é uma conta de trás para frente", afirma. Para escapar dessa dependência, Mario aposta no mercado local. "Por abastecer o mercado local, a gente consegue, em parte da produção, um preço diferenciado por esse motivo, que a gente atenderia, trabalharia como se fôssemos atacadistas, só que em volume menor. Isso aí nos ajuda muito na questão de fluxo de caixa aqui da propriedade", explica.
Já a mexerica vive um momento diferente, favorecido pela redução dos plantios em São Paulo e Minas Gerais. "A mexerica vive uma fase particular também, de diminuição de plantios em São Paulo e Minas, e acabou para nós, Goiás e Bahia, abastecer o resto do Brasil. Como a produção goiana é baixa e a produção baiana não é tão baixa, é uma produção boa, a gente está com mais demanda pela fruta do que oferta", conta. Mario defende novos investimentos na citricultura, inclusive por pequenos produtores, desde que haja planejamento e assistência técnica. "Eu acho bem viável, eu acho bem interessante mais produtores investirem na cultura, para a gente tornar isso tradicional da nossa região, do nosso estado. É uma alternativa de renda para algumas propriedades", diz.
Ele ressalta a importância do manejo sanitário. "É importante por- que hoje Goiás já é uma área presente de HLB, que é uma doença muito preocupante. O cancro cítrico também é presente em Goiás. Eu acho que o pequeno produtor é muito bem-vindo, mas é importante que ele comece com uma assistência técnica responsável, pensando que ele vai ter que lidar com esse tipo de problema." O produtor também alerta para o retorno financeiro mais lento. "É importante começar com o pé no chão, porque é uma cultura que gasta muito até você começar a ter retor- no. Ela demora um tempo para for- mar a copa, para atingir estrutura. Então tem que ser um investimento com o pé no chão, e sempre com a consistência técnica", conclui.
Assistência técnica
Na Fazenda Belo Horizonte, em Anápolis (GO), Sirlan Geraldo Santana cultiva quatro mil pés de mexe- rica em três alqueires. Há 25 anos, iniciou a atividade com apenas 600 plantas, depois de trocar a horticultura pela citricultura em busca de melhor retorno econômico. "Na época achei que a mexerica seria mais rentável. A horta dava muita despesa e a mexerica exigia um custo menor", lembra. A mudança mais significativa ocorreu há cerca de quatro anos, quando passou a receber a Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar Goiás. “Antes, muitas decisões eram tomadas pela experiência adquirida no campo, a adubação por exemplo, era feita sem análise de solo.
Hoje, todas as recomendações seguem critérios técnicos", explica. A engenheira agrônoma Vanda Maria Ferreira Rutke, técnica de campo do Senar Goiás, acompanhou a transição. Segundo ela, o manejo seguia práticas de outro produtor da região, sem um plano próprio. "Quando eu entrei, Sirlan fazia as aplicações seguindo o que o Pedro fazia, porque ele e o Pedro tinham o maquinário e eu já trabalhava com o Pedro há mais tempo. Então muito produto que o Pedro usava, ele também estava usando", relata Vanda. O primeiro ajuste foi na nutrição. "Não tinha uma adubação equilibra- da. A gente começou com a análise de solo, fizemos calcário naquelas áreas que precisavam", conta.

O trabalho também revisou o controle fitossanitário. "A questão da alternância de produto, o acaricida ele não mudou, mas os outros ele alternou. Passamos a entrar mais cedo para a alternaria, na pré- florada, o que antes não acontecia", explica. O controle de tripes, que havia causado perdas em um dos talhões, também passou a receber atenção. Esses ajustes abriram caminho para novas tecnologias, como a poda mecanizada, implantada há cerca de quatro anos. A técnica favoreceu frutos maiores, mais uniformes e de melhor qualidade comercial.
Os resultados levaram Sirlan a comprar a própria máquina. "Depois que vimos os resultados, resolvi comprar agora vou fazer a poda em todos os pés", comemora. No primeiro ciclo produtivo do novo pomar irrigado, formado por 1.500 plantas, foram colhidas aproximadamente 4.180 caixas de mexe- rica, comercializadas inicialmente por até R$ 50 cada. Atualmente, o preço gira em torno de R$ 40. Já a área de sequeiro, com cerca de 2.500 plantas, deverá produzir aproximadamente 8 mil caixas. Apesar do maior volume, a rentabilidade foi menor.
A irregularidade das chuvas comprometeu o desenvolvimento dos frutos, que ficaram menores e apresentaram manchas provocadas pelo ácaro da ferrugem. Com frutos de menor calibre, o preço caiu para cerca de R$ 30 por caixa, redução de aproximadamente 25% em relação ao ano passado, quando o produtor recebeu em torno de R$ 40. "O mercado paga pela qualidade quando a fruta é graúda, o preço melhora e na irrigação conseguimos um fruto muito melhor". O atraso das chuvas também provocou duas floradas consecutivas no mesmo pomar, comprometendo a uniformidade da produção e dificultando o manejo.
Mesmo assim, Sirlan destaca que o controle fitossanitário permaneceu eficiente, sem grandes perdas causadas por pragas ou doenças. Encerrada a colheita, começa um novo ciclo: primeiro, a poda; posteriormente, a irrigação induz uma nova florada, cerca de 30 dias de- pois. Da abertura das flores até a colheita transcorrem aproximada- mente sete meses.
Para Sirlan, a principal transformação ocorreu na forma de produzir. O conhecimento adquirido por meio da ATeG do Senar Goiás permitiu substituir práticas baseadas apenas na experiência por um manejo planejado e orientado por informações técnicas. "Hoje faço tudo diferente. Aprendi muita coisa que não conhecia. A assistência técnica trouxe conhecimento, organização e mais segurança para produzir só tenho a agradecer", comemora.
Mãos que colhem

Nenhuma safra chega ao mercado sem o trabalho manual da colheita. Reginaldo da Silva, de 25 anos, natural da Bahia, veio para Goiás em 2021 para uma temporada de colheita e nunca mais parou. Ele descreve a atividade como um trabalho que exige olhar treinado para reconhecer a fruta pronta e preservar a que ainda precisa amadurecer. "Depen- de do olhar de vocês para poder apanhar. E saber a fruta certa, para poder deixar no pé aquela que ainda tem condição de desenvolver mais”. Reginaldo chega à colher de 70 a 80 caixas por dia, o que pode render um salário de R$ 5 mil por mês. "Nós apanhamos sempre as frutas melhores, no padrão. Se apanhar a miúda vai ter reclamação e os clientes não vão gostar muito também". A escassez de mão de obra também é um problema para os produtores.
Nesse cenário, a contratação de trabalhadores sem experiência pode representar uma oportunidade, desde que haja dedicação e aprendizado. Jonas Esteves de Matos chegou à citricultura depois de trabalhar em um abatedouro de frango. Após o fechamento da unidade em Bela Vista de Goiás, há três anos, passou a atuar na colheita e na seleção de laranja, sem experiência anterior com o campo. "Eu aprendi muita coisa aqui sobre a laranja, o manejo. A pessoa que quiser trabalhar tem que vir se dedicar mais”, conta.

Resultado ‘amargo’
Goiás se consolidou como o oitavo maior produtor de laranja do País, com cerca de 11 mil a 12 mil hectares de citros. Mas o crescimento dos últimos anos, combinado a um cenário desfavorável, levou o setor a uma das crises mais severas de sua história recente. O panorama é traçado por Fábio Augusto Soares, produtor de Itaberaí e presidente da Associação Goiana dos Citricultores (Agocitros). Segundo ele, a localização do Estado, distante dos grandes centros industriais, limita a destinação da produção e empurra Goiás para o mercado in natura, hoje saturado.
O cenário se agravou após a valorização da fruta, há cerca de três a quatro anos, que estimulou novos plantios em diversos Estados. “Elevou-se o preço da fruta a valores astronômicos e isso levou à corrida do ouro, as pessoas achando que aquilo era para sempre”, relata. Com o aumento da oferta, o setor passou a enfrentar preços abaixo dos custos de produção. Segundo Soares, há cerca de um ano e meio os produtores vendem a caixa por cerca de R$ 25, enquanto o custo chega a R$ 40 ou R$ 42. Até mesmo o mercado in natura, tradicionalmente mais valorizado por exigir frutas de melhor qualidade, foi afetado. “Essa é a fruta nobre que Goiás tem a vocação de produzir, mas nós estamos com um mercado totalmente achatado”, afirma.
Manejo intenso
Além dos preços, o alto custo de produção pesa sobre a atividade. A citricultura exige acompanhamento durante todo o ano, com sucessivos manejos para garantir nutrição e controle de pragas e doenças. “É uma fábrica a céu aberto de um custo altíssimo”, resume Soares. A escassez de mão de obra qualificada para a colheita agrava o problema. Mesmo com a capacitação oferecida pelo Senar, ainda há dificuldade para formar turmas. Para Soares, o cenário também reflete o esvaziamento do campo e a transferência de pequenas propriedades para produtores maiores.
Outro desafio está na diferença entre o preço recebido pelo produtor e o pago pelo consumidor. Segundo ele, enquanto a fruta sai da propriedade por 60 a 70 centavos o quilo, chega ao supermercado por R$ 4 ou R$ 5. “Isso está freando o consumo”, afirma. Diante desse cenário, a Agocitros estuda uma campanha para conscientizar os consumidores sobre a diferença de preços e reforçar os benefícios do consumo de frutas cítricas e suco natural. Soares defende maior atuação do poder público, sobretudo no combate ao greening, uma das principais ameaças à citricultura goiana. Ele também propõe a criação de um fundo indenizatório específico para os citros, com participação pública e privada. “Nós não podemos ter uma atividade de tal importância e não ter um fundo indenizatório na cultura dos cítricos, porque com uma doença severa dessa nós não podemos brincar com o tempo”, defende.
Principal desafio fitossanitário
O greening (Huanglongbing – HLB) é considerado a principal doença da citricultura mundial. Causado pela bactéria Candidatus Liberibacter spp. e transmitido pelo psilídeo (Diaphorina citri), não tem cura e provoca queda de produtividade, maturação irregular dos frutos, que- da prematura e enfraquecimento progressivo das plantas, podendo comprometer a viabilidade dos pomares. Também são relevantes para a cadeia produtiva o cancro cítrico, a clorose variegada dos citros (CVC) e a gomose (Phytophthora).
Medidas regulatórias vigentes em Goiás
Desde 2006, por meio de instrução Normativa da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefe- sa) nº 8/2003, é proibido o plantio, comércio e transporte de material propagativo de citros a céu aberto no Estado. A produção de mudas só é permitida em viveiros protegidos por telado com malha mais restritiva que a exigida na esfera federal. A Instrução Normativa Federal nº 1.326/2025 determina a produção exclusivamente em viveiros com tela antiofídica. Em maio de 2026, a Agrodefesa publicou a Instrução Normativa nº 1/2026, que institui o Programa Estadual de Prevenção e Controle Complementar ao Huanglongbing (PECHLB), ampliando as ações de vigilância e controle fitossanitário nos pomares goianos. A Agrodefesa mantém cadastro de 533 citricultores em 562 propriedades rurais (dados 2025/2026) e realiza vigilância, monitoramento fitossanitário, fiscalização do trânsito vegetal e inspeção de viveiros.
Comunicação Sistema Faeg/Senar/Ifag
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