Aplicativo AI Pathology, utilizado em parceria com o Senar Goiás para a identificação do câncer de pele, é destaque no Brazil Journal


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Health Journal

Uma startup brasileira quer liderar a AI contra o câncer de pele. A Nvidia aposta nisso

Quando Willian Boelcke perdeu o pai para um câncer de pele diagnosticado tardiamente, decidiu mudar de carreira.

06 29 Willian Boelcke ok

Abandonou a ideia de cursar Economia, formou-se em Odontologia na Unicamp, mergulhou na pesquisa em oncologia e, anos depois, fundou a AI Pathology, uma healthtechque usa inteligência artificial para identificar lesões suspeitas de câncer de pele a partir de uma simples foto feita pelo celular.

Agora, a startup fundada em Limeira, no interior de São Paulo, acaba de dar mais um passo em sua estratégia de expansão ao ingressar no programa Inception, da Nvidia, que oferece acesso à infraestrutura computacional, treinamento e mentoria para startups de AI.

O objetivo é ambicioso: construir o maior banco de imagens de lesões de pele do mundo e transformar uma característica tipicamente brasileira – a enorme diversidade de tons de pele – em vantagem competitiva.

“Como o Brasil reúne uma das maiores variabilidades de pele do mundo, conseguimos treinar uma inteligência artificial que pode ser exportada para qualquer país,” disse Boelcke, que fundou a startup em 2024 com Lucas Souza, também dentista e que se especializou em AI para diagnóstico em oncologia.

Hoje, a base da empresa reúne cerca de 90 mil imagens coletadas em parceria com instituições de todos os estados. A meta é chegar a 4 milhões de imagens, formando um dos maiores datasets globais para treinamento de AI em dermatologia.

O aplicativo da Pathology, o Nevo (termo médico dado às pintas), permite que qualquer pessoa fotografe uma lesão pelo celular e receba, em poucos segundos, uma classificação de risco.

O sistema funciona em qualquer celular com câmera, inclusive nos aparelhos mais simples e baratos do mercado. Segundo Boelcke, a taxa de acurácia da AI foi de 93%. Com 230 mil novos casos por ano, o câncer de pele é o tipo mais comum de tumor no Brasil.

O principal caso de uso até agora foi desenvolvido em parceria com o Senar, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, de Goiás. A Pathology avaliou pintas de 2.058 trabalhadores rurais, uma das populações mais vulneráveis ao câncer de pele devido à exposição solar crônica.

A tecnologia classificou como prioritários cerca de 10% deles e identificou 75 casos de câncer de pele em estágio inicial, encaminhados para tratamento emergencial.

No ano passado, o estudo com os trabalhadores rurais de Goiás foi premiado por um Hackathon da Escola de Saúde Pública de Harvard. Hoje a startup brasileira faz parte do Harvard Innovation Labs.

Boelcke acredita que o modelo pode ajudar a reduzir um dos maiores gargalos do sistema de saúde brasileiro: a fila para consultas com dermatologistas.

São 12 mil profissionais registrados no Brasil — o que equivale a uma proporção média de um dermatologista para 17 mil habitantes — e a maioria está concentrada no Sul e Sudeste.

“Em muitas regiões do País, o tempo de espera de uma consulta com um dermatologista na rede pública chega a três anos,” disse Boelcke.

Para Márcio Aguiar, diretor da divisão enterprise da Nvidia para a América Latina, a tecnologia da Pathology mostra como a AI deve atuar na medicina.

Marcio Aguiar ok

“A inteligência artificial não veio para substituir o médico. Ela veio para ajudá-lo a tomar decisões mais assertivas.” Hoje, o programa Inception apoia 1600 startups na América Latina.

A Pathology já recebeu no total R$ 4 milhões do family office Enseada, dos fundadores da SulAmérica.

Os recursos vão ajudar a startup a enfrentar a fase regulatória. A Pathology espera a aprovação da Anvisa, que desde 2024 passou a regulamentar o uso de softwares e instrumentos médicos que utilizam AI.

Boelcke espera que a aprovação saia nas próximas semanas. Com o ok do órgão regulatório brasileiro, a empresa deve lançar uma rodada Série A de aproximadamente US$ 8 milhões para financiar a expansão internacional.

A estratégia inclui estudos clínicos nos Estados Unidos e uma futura submissão à FDA. Desde 2024, o regulador americano exige que ferramentas de AI em saúde demonstrem representatividade demográfica no treinamento dos modelos — requisito que, segundo Boelcke, poucas empresas conseguem cumprir.

“Acredito que a gente pode ser a primeira empresa da categoria a obter essa aprovação nos Estados Unidos, porque nosso banco de dados reúne uma variabilidade demográfica muito difícil de encontrar em outros países.”

Uma vez aprovada pelo FDA, o objetivo é habilitar a tecnologia para ser incorporada pelas operadoras de saúde americanas.

No Brasil, o modelo de negócios é B2B. A Natura contratou a tecnologia e a oferece como benefício a seus cerca de 8 mil funcionários. O laboratório Sabin, de Brasília, acaba de fechar um contrato para que a tecnologia apoie o diagnóstico dermatológico em sua rede.

A Pathology nasceu da dor da perda do pai do seu fundador. E quer evitar que histórias como essa se repitam.

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