Mesmo com aumento na área cultivada de sorgo e girassol, estiagem, atraso no plantio, alta pressão de pragas e redução dos investimentos derrubaram a produtividade. A produção de milho segunda safra deve recuar 31,4% no estado. Os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foram divulgados nesta terça-feira (14), no 10º Levantamento da Safra 2025/2026 do Brasil e dos Estados. A seguir, confira a análise elaborada pelo assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Lucas Lopes.
Em âmbito nacional, a produção de grãos está estimada em 360,1 milhões de toneladas, representando um incremento de 2,2% em relação à safra anterior. Esse crescimento corresponde a um aumento absoluto de aproximadamente 83,5 milhões de toneladas quando comparado ao ciclo passado, refletindo a expectativa de recuperação e expansão da produção agrícola brasileira.
A produção nacional de Milho, considerando as três safras do ciclo atual, está estimada em 141,7 milhões de toneladas, com incremento de 0,4% em relação à safra anterior. A primeira safra do cereal encontra-se em fase final de colheita, com produção projetada em 29,6 milhões de toneladas
Em relação à 2ª safra de milho “safrinha”, a colheita alcança 38,9% da área cultivada, percentual inferior à média observada nos últimos cinco anos para o mesmo período. O Mato Grosso, principal estado produtor do cereal, apresentou condições climáticas predominantemente favoráveis ao longo do ciclo, proporcionando adequado estabelecimento das lavouras e manutenção do potencial produtivo.
Em contrapartida, estados como Goiás, Minas Gerais e Piauí foram impactados por períodos de restrição hídrica (veranicos), principalmente durante os meses de abril e maio, comprometendo o desenvolvimento das plantas e podendo limitar os níveis finais de produtividade.
Diante desse cenário, a Conab projeta uma produção de aproximadamente 109,43 milhões de toneladas para a 2ªsafra de milho, considerando os impactos regionais observados durante o ciclo.
No Estado de Goiás, a área cultivada com grãos apresenta crescimento de 5,0% em comparação ao ciclo anterior, totalizando aproximadamente 7,97 milhões de hectares. Entretanto, a produção estadual foi estimada em 33,1 milhões de toneladas, representando uma retração de 11,2% frente à safra passada.
Essa redução está associada principalmente aos impactos do déficit hídrico ocorrido durante fases críticas do desenvolvimento das culturas de segunda safra, além da redução nos níveis de investimento em tecnologias agrícolas, como defensivos, fertilizantes e nutrição foliar, influenciada pela elevação dos custos dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados. Esse cenário impactou principalmente as culturas de milho, sorgo e girassol.
A cultura do milho 2ª Safra, principal atividade agrícola do período em Goiás, apresentou redução de 3,8% na área cultivada, totalizando aproximadamente 1,7 milhão de hectares. A produção estadual estimada é de 8,7 milhões de toneladas, configurando uma retração de 31,4% em relação à safra anterior, com redução de 4,0 milhões de toneladas no volume produzido dentro do estado.
Entre os principais fatores que contribuíram para esse resultado destacam-se o atraso na implantação das lavouras, com parcela significativa das áreas semeadas durante o mês de março, e a ocorrência de períodos prolongados de restrição hídrica, com intervalos de 50 a 60 dias sem precipitações significativas em importantes regiões produtoras do estado.
Além disso, houve aumento da pressão de pragas, especialmente lagartas, percevejos e cigarrinha-do-milho, elevando os desafios fitossanitários e contribuindo para a redução do potencial produtivo das lavouras. As condições climáticas adversas afetaram diretamente fases fenológicas determinantes da cultura, como desenvolvimento vegetativo, florescimento e enchimento de grãos.
Na cultura do Girassol, Goiás mantém sua posição de liderança nacional, consolidando a oleaginosa como uma importante alternativa de diversificação para a segunda safra. A área cultivada apresentou expansão de 34,0%, alcançando aproximadamente 63 mil hectares, enquanto a produção estimada é de 83,2 mil toneladas. Atualmente, as lavouras encontram-se predominantemente nos estádios de maturação dos aquênios e início de colheita.
Por outro lado, o Sorgo destaca-se como a cultura de maior expansão na segunda safra goiana. A área cultivada apresentou crescimento de aproximadamente 60% em relação ao ciclo anterior, atingindo cerca de 631 mil hectares. A produção estimada é de 1,96 milhão de toneladas, representando incremento de 24,2% frente à safra passada.
Observa-se, entretanto, uma atualização nas estimativas produtivas ao longo dos levantamentos realizados pela Conab. No 9º Levantamento de Safra, a projeção indicava produção próxima a 2,0 milhões de toneladas; contudo, em função dos impactos provocados pelas irregularidades climáticas e pela redução do potencial produtivo em algumas regiões, houve ajuste negativo de aproximadamente 2,0% na expectativa final de produção.
O cenário da safra atual evidencia um ambiente produtivo marcado por contrastes entre expansão de área cultivada e limitações no potencial produtivo, especialmente em função das condições climáticas adversas observadas em importantes regiões agrícolas do país. Apesar da expectativa de crescimento da produção nacional de grãos, a segunda safra apresentou desafios relevantes, principalmente para a cultura do milho, que sofreu impactos significativos decorrentes do atraso na semeadura, irregularidade das precipitações, períodos prolongados de déficit hídrico e maior pressão fitossanitária.
Em Goiás, embora tenha ocorrido expansão da área total cultivada, os resultados produtivos foram comprometidos pela combinação entre menor disponibilidade hídrica durante fases críticas das culturas, redução do nível tecnológico empregado nas lavouras e aumento dos custos de produção, fatores que limitaram a expressão do potencial produtivo, especialmente no milho segunda safra. A retração superior a 30% na produção estadual de milho reforça a sensibilidade da cultura às condições ambientais e à necessidade de planejamento estratégico para mitigação de riscos climáticos e fitossanitários.
Por outro lado, culturas alternativas como sorgo e girassol demonstraram maior resiliência e importância estratégica dentro do sistema produtivo goiano, contribuindo para a diversificação da segunda safra, otimização do uso das áreas agrícolas e maior estabilidade econômica ao produtor. O crescimento expressivo dessas culturas reforça uma tendência de adaptação dos sistemas agrícolas frente aos desafios de custo, clima e rentabilidade.
Dessa forma, a safra atual reforça a importância da adoção de estratégias integradas de manejo, investimentos em tecnologias de proteção de plantas, nutrição equilibrada, monitoramento fitossanitário e utilização de ferramentas de mitigação de riscos climáticos.
Para os próximos ciclos, a competitividade e sustentabilidade da agricultura goiana estarão diretamente associadas à capacidade de conciliar eficiência produtiva, racionalização dos investimentos e maior resiliência dos sistemas agrícolas diante das variabilidades climáticas.
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