Expedição Safra Goiás aponta queda de 28,9% na produção de milho e destaca avanço do sorgo como alternativa no campo

Girassol também se consolida como opção de diversificação, mas sente os efeitos do plantio tardio; levantamento acende alerta para clima, custos e planejamento da próxima safra. Dados foram divulgados nesta segunda-feira, 22, em coletiva na sede do Sistema Faeg/ Senar/Ifag


A segunda etapa da Expedição Safra Goiás 2026/26 consolidou um diagnóstico de maior pressão sobre a produção agrícola no estado. O levantamento realizado pelo Sistema Faeg/Senar/Ifag e parceiros avaliou lavouras em diferentes regiões e apontou que a combinação entre atraso no plantio, irregularidade climática, aumento de custos e mudanças no cenário econômico tem exigido novas estratégias dos produtores rurais.

Ao longo do percurso, as equipes técnicas e institucionais percorreram mais de 2.400 quilômetros em campo. “Foram 19 municípios onde fizemos a coleta, mas percorremos mais de 47 municípios em Goiás. Isso representa cerca de 77% da segunda safra do nosso estado”, reforça Lucas Lopes, assessor técnico da Faeg e participante da expedição.

Os dados mostram que o plantio ocorreu com atraso de até duas semanas em comparação ao ciclo anterior e ganhou velocidade apenas na segunda quinzena de fevereiro. Como consequência, aproximadamente 43% das áreas de milho foram implantadas fora da janela considerada ideal, comprometendo o potencial produtivo. Para o vice-presidente administrativo da Faeg e presidente do Ifag, Armando Rollemberg Neto, o cenário representa uma mudança importante em relação ao ciclo anterior. “Estamos vindo de uma safra recorde para uma safra com menor produtividade e menor produção. O desafio do setor é cada vez maior e, com as mudanças climáticas, isso vem aumentando.”

Armando destacou que, além do clima, fatores externos também afetaram diretamente o custo de produção. “Este ano nós também tivemos a questão geopolítica, fazendo com que o produtor tivesse aumento de custos que não estava planejado. Tivemos alta dos fertilizantes, com aumento de aproximadamente 25% do MAP e de 50% de nitrogenados, como a ureia, entre janeiro e maio, pressionando ainda mais o custo de produção.”

No milho segunda safra, os reflexos aparecem diretamente nos números. As projeções preliminares indicam área plantada de 1,75 milhão de hectares, redução de 3,85% frente à safra anterior. A produtividade estimada caiu para 86,4 sacas por hectare, retração de 26,1%, enquanto a produção deve alcançar 9,03 milhões de toneladas, queda de 28,9% em relação ao último ciclo.

De acordo com Vilmar Eurípedes da Silva Júnior, analista de mercado do Ifag, o levantamento foi realizado com metodologia baseada em estimativa de produtividade diretamente nas lavouras. “A campo, nós analisamos os principais componentes de produtividade, como número de espigas por planta, quantidade de grãos e peso por espiga. Com isso, por meio de modelos matemáticos, conseguimos chegar às estimativas em sacas por hectare.”

Segundo ele, a grande variação entre regiões ocorreu principalmente pela irregularidade das chuvas. “Em Goiás existe diversidade de solo, altitude e fatores produtivos. Mas neste ano a variabilidade climática foi muito significativa. Às vezes choveu em uma propriedade e não choveu na outra logo ao lado. Mesmo produtores que plantaram na mesma data tiveram resultados diferentes.”

Vilmar destacou que o produtor precisou adaptar o sistema produtivo. “Muitos produtores que tradicionalmente fariam toda a área com milho precisaram diversificar. Migraram parte da área para o sorgo e depois para o girassol como forma de reduzir risco.”

A análise mostra que cerca de 43% do milho foi plantado fora da janela considerada ideal, período que vai até 20 de fevereiro, e que aproximadamente metade das áreas de girassol também foi implantada fora do período mais indicado.

Entre as culturas avaliadas, o sorgo foi um dos principais destaques. A produção estimada chega a 2,010 milhões de toneladas, impulsionada principalmente pelo crescimento da área cultivada, 631,1 mil ha, aumento de 60%, em relação a safra 24/25. “O sorgo vem ganhando muito espaço pelo avanço das exportações, pelo consumo interno e pelo uso crescente na produção de etanol e na nutrição animal. O aumento observado ocorreu muito mais pela expansão de área do que por ganho de produtividade”, explicou Vilmar.

No caso do girassol, mesmo com aumento de área, houve perda de rendimento. “Na safra passada tínhamos produtividade média próxima de 26 sacas por hectare e agora estamos trabalhando entre 20 e 22 sacas por hectare. Por isso, mesmo ampliando o plantio, a produção tende a ficar menor.”

Outro ponto observado em campo foi a preocupação crescente dos produtores com ataques de javalis. “Em algumas situações, os ataques podem destruir três, quatro ou cinco hectares inteiros de uma propriedade, gerando perda total para o produtor”, relataram os técnicos da equipe.

Além dos desafios atuais, as projeções climáticas também entraram no radar do setor. Segundo André Amorim, gerente do Cimehgo, junho apresentou eventos fora do padrão para o período. “Neste mês tivemos chuvas e vendavais que provocaram tombamento de milharais, gerando prejuízo para produtores que ainda não colheram. Ainda teremos chuvas nesta semana em algumas regiões do estado, o que pode interferir na colheita.”

Sobre o cenário climático futuro, André ponderou que ainda não é possível afirmar um evento mais intenso de El Niño. “O El Niño é monitorado a cada três meses. Ainda não se pode falar em um evento mais forte. O que sabemos é que a chuva deve chegar mais tarde para o produtor na safra 2026/27, o que pode atrasar o plantio.”

Apesar disso, a avaliação é que Goiás tende a enfrentar um cenário menos severo do que outras regiões do país. Uma das estratégias apontadas para adaptação é o ajuste do sistema produtivo. “Uma alternativa seria ampliar o milho junto com a soja na próxima safra e, para a safrinha de 2027, investir em culturas com maior resistência hídrica, como sorgo e girassol.”

Para Armando Rollemberg Neto, o momento exige informação, planejamento e políticas que deem condições para o produtor continuar investindo. “O Sistema Faeg, Senar e Ifag atua na geração de informação e capacitação para que o produtor faça uma gestão estratégica das propriedades. Nossa preocupação não está apenas na taxa de juros do Plano Safra, mas também em garantir que os recursos cheguem efetivamente ao produtor rural, para que ele atravesse esse cenário com menos prejuízos.”

Os dados apresentados nesta segunda etapa da Expedição Safra serão levados ao poder público com o objetivo de subsidiar estratégias e políticas voltadas ao fortalecimento da produção rural em Goiás.

Comunicação Sistema Faeg/Senar/Ifag

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