Tecnologia, manejo especializado e condições favoráveis do Cerrado impulsionam a expansão dos vinhedos e da produção de vinhos no Estado
Enquanto o Rio Grande do Sul projeta uma das maiores colheitas de uva dos últimos anos em 2026, impulsionada pela recuperação climática após perdas recentes, outras regiões brasileiras também vêm ganhando protagonismo no setor vitivinícola. Entre elas está Goiás, que se consolida como uma das novas fronteiras da viticultura tropical brasileira, impulsionada pelo avanço tecnológico, pelo manejo especializado e pelas condições favoráveis do Cerrado.
Tradicionalmente associada às regiões Sul e Sudeste do país, a produção de uvas encontrou no território goiano características consideradas estratégicas para o desenvolvimento da cultura. O inverno seco, a alta luminosidade, a altitude de algumas regiões e a possibilidade de controlar o ciclo produtivo por meio da técnica da dupla poda têm ampliado o potencial da atividade no estado.

Segundo o engenheiro agrônomo e instrutor de viticultura do Senar Goiás, Matheus Elache Rosa, foi nos últimos cinco anos que a atividade passou a apresentar um crescimento mais acelerado. "A viticultura goiana está em constante expansão. Já existiam produtores mais antigos e consolidados, mas foi nos últimos anos que a produção começou a ganhar força e multiplicar os interessados no cultivo de uvas finas de mesa, uvas rústicas e também na produção voltada para vinhos", afirma.
A evolução da atividade acompanha uma mudança importante na percepção sobre o cultivo da videira no Brasil. Se antes a produção era vista como uma atividade praticamente exclusiva de regiões frias, hoje estados do Cerrado demonstram capacidade para produzir uvas de alta qualidade, inclusive destinadas à elaboração de vinhos finos.
Para a engenheira agrônoma Ana Caroline Dias de Souza, o clima goiano exerce papel decisivo nesse avanço. "O Cerrado apresenta temperaturas elevadas, boa luminosidade, amplitude térmica favorável e duas estações bem definidas. Essas características favorecem o manejo da videira, especialmente com a utilização da técnica da dupla poda", explica.
Ela destaca que o principal diferencial está justamente na possibilidade de direcionar a colheita para os meses mais secos do ano. "Conseguimos produzir durante o inverno seco, o que favorece melhor maturação das uvas, maior concentração de açúcar e compostos fenólicos, impactando diretamente na qualidade final da fruta e dos vinhos", completa.
Poda expande a cultura no estado
A chamada dupla poda, também conhecida como poda invertida, foi determinante para a expansão da viticultura em Goiás e em outros estados do Brasil Central. A técnica permite alterar o ciclo natural da videira, deslocando a colheita para períodos de menor incidência de chuva.
Na prática, os produtores realizam uma poda de produção entre março e abril, fazendo com que a colheita ocorra entre junho e julho, meses caracterizados pelo clima seco do Cerrado. Em algumas propriedades, ainda é possível obter uma segunda produção no fim do ano. "Diferentemente do Sul do país, Goiás consegue trabalhar com duas safras anuais, dependendo do manejo adotado pelo produtor. Isso representa uma vantagem competitiva importante", afirma Matheus.

Segundo Ana Caroline, mesmo com os avanços proporcionados pela técnica, o clima continua exigindo monitoramento constante e manejo preciso. "As fases mais sensíveis da videira são a brotação, a floração e a maturação. Chuvas fora de época e alta umidade podem favorecer doenças fúngicas e comprometer produtividade e qualidade", explica.
Entre as principais preocupações dos produtores está o míldio, considerado atualmente uma das doenças mais agressivas para os vinhedos do Cerrado. "Quando as chuvas se prolongam além do esperado durante o ciclo produtivo, o produtor precisa intensificar o manejo fitossanitário e acompanhar diariamente o comportamento do vinhedo", afirma a especialista.
Safra 2025/2026

Apesar das irregularidades climáticas registradas nos últimos anos, a expectativa para a safra 2025/2026 em Goiás é positiva entre os produtores acompanhados pelos técnicos do Senar Goiás.
Segundo Ana Caroline, o atraso das chuvas durante o ciclo de formação das plantas acabou favorecendo o desenvolvimento vegetativo das videiras. "Com menor pressão de doenças, os ramos conseguiram se desenvolver de forma mais saudável e acumular mais reservas, o que impacta diretamente o potencial produtivo da safra seguinte", explica.
Ela ressalta que os produtores que conseguiram ajustar corretamente o momento das podas e acompanhar mais de perto as condições climáticas tendem a colher melhores resultados, tanto em produtividade quanto em qualidade. "De maneira geral, a expectativa é bastante positiva para esta safra, tanto em quantidade quanto em qualidade", afirma.
Assistência técnica

O crescimento da viticultura goiana também vem sendo acompanhado por um processo crescente de profissionalização no campo. Para atender à demanda dos produtores interessados na cultura, o Senar Goiás tem ampliado a oferta de treinamentos, cursos e assistência técnica especializada. Além dos cursos de Formação Profissional Rural (FPR), a instituição atua por meio da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), acompanhando propriedades e orientando produtores no manejo dos vinhedos.
Para Matheus, um dos maiores avanços dos últimos anos foi justamente o acesso à informação técnica. "O treinamento de cultivo de uvas do Senar Goiás ajudou a desmistificar a ideia de que a videira só produz em clima frio. Hoje o produtor entende que, com manejo correto, Goiás tem potencial para produzir uvas e vinhos de alta qualidade", destaca.
Ana Caroline também observava uma mudança importante no perfil dos produtores. "Hoje os produtores utilizam mais monitoramento climático, irrigação controlada, manejo nutricional mais preciso e acompanhamento técnico especializado. Existe muito mais troca de informação entre produtores, consultores e instituições de pesquisa", afirma.
Mesmo com os avanços, ela ressalta que a atividade ainda enfrenta desafios relacionados à formação de mão de obra especializada e à adaptação das variedades ao clima do Cerrado.
Enoturismo
Além do crescimento da produção de uvas finas, Goiás também começa a conquistar espaço no mercado de vinhos de inverno e no enoturismo.
Regiões como Cocalzinho de Goiás, Pirenópolis, Padre Bernardo, Jaraguá e Rianápolis já contam com vinhedos estruturados, enquanto algumas vinícolas acumulam premiações nacionais e ampliam a visibilidade da produção local. "Cocalzinho possui vinhedos com mais de 1.100 metros de altitude e já conta com vinhos premiados nacionalmente. Isso demonstra o potencial que o estado possui para construção de uma identidade própria na viticultura", destaca Ana Caroline.
Segundo os especialistas, a tendência é que Goiás continue crescendo de forma gradual e cada vez mais profissionalizada nos próximos anos, especialmente em segmentos de maior valor agregado, como vinhos finos, turismo rural e experiências ligadas ao setor vitivinícola. "O estado não deve competir em volume com regiões tradicionais, mas tem tudo para se tornar uma referência nacional em viticultura tropical de alta qualidade", conclui Matheus Elache Rosa.
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Comunicação Sistema Faeg/Senar
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