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Contratar trabalhadores é um desafio de intensidade alta ou muito alta para 63,9% dos produtores ouvidos na Pesquisa de Mão de Obra Rural em Goiás. O levantamento, conduzido pelo Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), a pedido do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Goiás), por meio do programa Talentos do Campo, também aponta dificuldades para reter profissionais e repor vagas nas propriedades.
Os resultados preliminares foram apresentados na terça-feira (27), no Encontro de RHs do Agro, durante a FICCA 2026. Até o momento, foram entrevistados 341 produtores das 12 regionais do Senar Goiás. Entre eles, 68,3% afirmam já ter deixado de contratar por receio de problemas trabalhistas e 77,4% avaliam que a dificuldade de contratação tende a piorar.
A pesquisa ouviu produtores entre julho e outubro, com entrevistas distribuídas conforme o peso de cada regional no Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) e a divisão entre atividades agrícolas e pecuárias. O levantamento segue em campo até o fim de novembro, e os percentuais podem sofrer ajustes no relatório final.
“Nosso objetivo é sair da percepção genérica de que falta gente no campo e mostrar onde exatamente está o gargalo, em quais funções, em quais cadeias e por quais motivos. Com isso, a qualificação e a gestão de pessoas podem ser direcionadas com mais precisão”, explica Vilmar Júnior, analista técnico do Ifag e responsável pela condução da pesquisa e apresentação dos resultados.
Para 54,3% dos entrevistados, a mão de obra já está entre as principais dificuldades da atividade, ao lado de fatores como custo de produção, clima e preços.
O levantamento também traça o perfil dos produtores ouvidos: 57% estão há mais de 20 anos na atividade, 51% têm 50 anos ou mais e 46% possuem curso superior ou pós-graduação. Apenas 7% têm até 29 anos. Em uma a cada quatro propriedades, há participação feminina na gestão.
As dificuldades relatadas pelos produtores contrastam com o peso do setor no mercado de trabalho. No segundo trimestre de 2026, o agronegócio brasileiro reuniu 28,4 milhões de pessoas ocupadas, recorde para o período desde o início da série histórica, em 2012. O número equivale a 26% dos trabalhadores do País, segundo o boletim elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Em Goiás, o agronegócio reunia 1,08 milhão de pessoas ocupadas no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 28% da população ocupada no estado, segundo o Instituto Mauro Borges de Pesquisa e Política Econômica (IMB), com base na PNAD Contínua, do IBGE. Conforme dados do Novo Caged, a agropecuária goiana registrou saldo positivo de cerca de 8,1 mil empregos com carteira assinada no primeiro semestre.
Os resultados preliminares mostram que as funções mais difíceis de preencher variam conforme a cadeia produtiva. Entre os agricultores entrevistados, 58,3% apontam dificuldade elevada para contratar operador de máquinas. Na pecuária, 76,1% relatam o mesmo problema para encontrar vaqueiro.
O levantamento também analisou a remuneração informada pelos produtores. A mediana do salário-base mensal é de aproximadamente R$ 2,6 mil para caseiro, R$ 3 mil para trabalhador rural, R$ 3,2 mil para vaqueiro, R$ 4,5 mil para operador de máquinas e R$ 6,5 mil para gerente ou encarregado. Os valores não incluem moradia e alimentação, benefícios oferecidos em cerca de 75% das propriedades.
Na pecuária, entre as propriedades que relatam dificuldade alta para contratar vaqueiro, 33% pagam até 1,5 salário mínimo para a função. Entre aquelas que não relatam dificuldade alta, essa proporção é de 12,9%. A associação é estatisticamente significativa, mas não permite concluir que a remuneração, isoladamente, explique a dificuldade de contratação.
Na lavoura, a análise não identificou diferença estatisticamente significativa de salário entre os grupos com e sem dificuldade para contratar operador de máquinas. Para essa função, a qualificação aparece como um dos gargalos apontados pelos produtores.
Nos últimos 12 meses, 57,2% das propriedades registraram saída de funcionários. Nos desligamentos por iniciativa do trabalhador, o motivo mais citado é uma proposta de trabalho melhor (37,2%), reforçando a disputa por mão de obra entre produtores rurais.
Para 43,4% dos produtores, a reposição da vaga leva ao menos um mês. A sobrecarga da equipe que permanece é apontada por 66% como a principal consequência.
A pesquisa também revela diferenças entre as respostas espontâneas e a avaliação de problemas apresentados individualmente. Nas perguntas abertas, a queixa mais citada é não encontrar pessoas para trabalhar. Na avaliação de cada problema, comportamento e compromisso do trabalhador recebem as notas mais altas da escala por 71,8% dos respondentes, à frente da falta de pessoas, com 69,2%, da legislação trabalhista, com 62,5%, e da falta de qualificação, com 57,2%.
“Muitos colaboradores trabalham um dia e não retornam no seguinte”, relatou um dos produtores entrevistados.
Responsabilidade, interesse em aprender e produtividade também lideram os atributos considerados mais importantes no momento da contratação, com 82,7%, 79,2% e 77,7%, respectivamente. A formação técnica formal aparece com 24,3%.
Na avaliação da equipe do Ifag, os resultados indicam a importância de integrar competências práticas e comportamentais à qualificação, com atenção à postura profissional e ao treinamento no próprio trabalho.
Entre os entrevistados, 87,1% afirmam que investiriam mais em tecnologia caso a escassez de mão de obra persista. Ao mesmo tempo, 76,2% consideram que ela não substitui os trabalhadores.
“A tecnologia não elimina pessoas, ela muda o perfil de quem é contratado. Plantadeiras com monitor de sementes descartam a necessidade de um auxiliar de plantio durante a operação, mas máquinas e ferramentas digitais exigem novas competências, e isso reforça a necessidade de requalificação contínua, e é aí que entram os cursos e treinamentos ofertados pelo Senar Goiás”, avalia Vilmar.
O Talentos do Campo é a plataforma do Senar Goiás que conecta produtores rurais a trabalhadores e oferece orientação às propriedades durante o processo seletivo, da definição do perfil desejado ao acompanhamento da contratação. O levantamento pode apoiar a priorização das funções com maior dificuldade de preenchimento, orientar a definição dos perfis e da remuneração das vagas e reforçar o acompanhamento após a contratação.
“Os resultados da pesquisa vão ser utilizados para subsidiar o trabalho do Senar junto aos produtores. A gente sabe que a dificuldade de mão de obra existe, mas esta pesquisa vai nos proporcionar medir esse impacto, identificar os setores mais afetados e, principalmente, fazer as correlações entre os principais desafios encontrados”, afirma Pedro Camilo, diretor de Tecnologia e superintendente adjunto do Senar Goiás, responsável pelo programa Talentos do Campo.
Produtores com vagas abertas e trabalhadores em busca de oportunidades podem se cadastrar em www.talentosdocampo.com.br.
O Ifag ressalta que os resultados são preliminares, expressam percepções declaradas pelos produtores entrevistados e não medem desemprego nem estabelecem relações de causa e efeito. A próxima etapa prevê a conclusão da amostra e o cruzamento dos resultados com os indicadores do VBP estadual e municipal.